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segunda-feira, 7 de maio de 2012

LA LOBA


texto indicado pela coordenadora da equipe Sul 1 em 2012, Isabela Santana, como material provocador para o trabalho artístico-pedagógico neste ano.

LA LOBA

"Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram.
Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas
que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra
especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando
geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios
Tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que
foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban num carro incendiado com a janela traseira
arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente
com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca,
com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La
Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva
especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos
de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua
especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montanhas e os arroios, leitos secos de rios, à
procura de ossos de lobos e quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último
osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta
junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o
esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a
formar carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e
uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e
desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto
canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar o rio respingando água, quer
pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é tranformado
numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e
quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba
pode simpatizar com você e lhe ensinar algo - algo da alma."

Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com lobos

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Vídeo-Dossiê . Encerramento do ciclo 2011... MERDA!!!

Ontem, dia 30 de novembro, as atividades do Programa Vocacional 2011 foram encerradas oficialmente.

A equipe Sul 1 / Dança, ao elaborar o dossiê das ações desse ano, escolheu como formato um vídeo que registra toda essa retrospectiva. Este material foi apresentado pela primeira vez para todos os vocacionados presentes na Mostra Regional da equipe, dia 20 de novembro, e distribuído para os 5 equipamentos em que estivemos durante esse tempo todo.

Está aí abaixo, pra quem quiser ver!

No mais...
Contágio, risco, criação, ação cultural, movimento, reflexão, encontros, deslocamentos. A TODOS os que estiveram envolvidos nesse trabalho, VALEU MUITO POR ESTE ANO!!!! E que os caminhos continuem, pelas vontades, pelos desejos, seja na dança, no teatro, na arte, na vida. MERDA, MERDA, MERDA!!

http://www.youtube.com/watch?v=5LmiIZXe9iA
edição: Cristina Ávila
  

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

lançamento da Revista Vocare . Programa Vocacional 10 Anos

Hoje, dia 28 de novembro, aconteceu a última Reunião Geral do Programa Vocacional 2011. Com toda a equipe reunida na Galeria Olido, houve o lançamento da Revista Vocare, edição comemorativa dos 10 anos do Programa.
A distribuição já começou a ser feita, e até o ano que vem serão 5000 exemplares para diversos espaços que se interessem por este material.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

compartilhamentos: "A porta aberta", Peter Brook

Texto disparador da discussão na reunião, levado pela A.O. Ana Sharp:

"Como devemos nos situar entre "tudo é possível" e "qualquer coisa não é aceitável"? A disciplina, em si, pode ser tanto negativa como positiva. Pode fechar todas as portas, negar a liberdade ou, no extremo oposto, constituir o rigor indispensável para emergir do lamaçal de "qualquer coisa". Por isso é que não há receitas prontas. Permanecer muito tempo na profundidade pode se tornar aborrecido. Permanecer muito tempo no superficial logo se torna banal. Permanecer muito tempo nas alturas pode ser intolerável. Temos que estar em movimento o tempo todo."
(de "A porta aberta", Peter Brook)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

compartilhamentos . Órfãos do explicável . Jorge Forbes

   
Artigo sugerido por Zina Filler (coordenadora de dança/equipe Norte), na última reunião de ação. Publicado em O Estado de São Paulo, 25/09/2011.

Órfãos do explicável
Aprendemos que tudo tem razão de ser - e aí vem a tragédia do menino de 10 anos que se matou. Luto e perplexidade.

Escrevo o que ninguém quer ler nem ouvir falar: não existe nenhuma fórmula, nenhum procedimento ou protocolo que tenha capacidade de prever uma atrocidade como a de um menino de 10 anos roubar o revólver do pai; esconder a arma, quando perguntado pelo próprio pai; atirar na sua professora; e em seguida se matar.
É esperado que sejamos nestes próximos dias bombardeados com detalhes da vida desse menino: suas leituras, amizades, humores, ascendência familiar, credos, hábitos, notas escolares, desenhos, bilhetes eletrônicos, tiques, sexualidade, estranhezas. Tudo é bom, tudo serve, para a tentativa desesperada de estabelecer um nexo causal. Somos filhos do Iluminismo. Aprendemos desde pequenos que tudo tem uma razão de ser e, se não compreendemos, a falha não está no saber - pois o saber é sem falha -, mas no raciocínio imperfeito.
A sociedade ainda não suporta constatar que a pós-modernidade nos fez órfãos do Iluminismo porque isso é desesperador. E agora que a festa do "tudo é explicável" acabou? Como suportar não saber se aquele garoto um pouco arredio não é o próximo assassino de si mesmo ou de alguém? Se insistirmos em causalidades forçadas, vamos criar uma sociedade irrespirável. Afinal, qual de nós não tem a sua esquisitice? Já se fala que a professora teria notado um comportamento diferente no menino e não lhe teriam dado atenção. Já se fala que o pai deveria ter prevenido a direção da escola sobre o desaparecimento da arma. Como é fácil ser profeta do passado! Duro é constatar que estamos em uma época na qual esses crimes inusitados são um dos tipos de manifestação.
Há poucos dias, a presidente, em nosso nome, disse na abertura da Assembleia-Geral da ONU: "O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo". Está correto e é válido para além da crise econômica: vivemos nos amparando nas teorias defasadas de um mundo velho, sim. Quem duvida que uma das interpretações que mais vai se fazer é a de que o menino se identificou com o pai policial? Ou que, ao contrário, para provocar o pai, teve um comportamento de bandido? Ou, pior, que por ódio ao pai se matou com seu instrumento?
Estamos desbussolados. Os sintomas de nossa inaptidão para viver neste novo mundo estão sendo tragicamente anunciados. Ontem, foi o moço da Noruega; hoje, o garoto brasileiro. Tão distantes e tão perto. Quando tudo parecia tão bem, tão perfeito: bom filho, boas notas, ia à igreja e até tocava bateria... ocorre o acidente, o fato inusitado, que nos deixa pasmados, ignorantes de nossa condição humana.
Urge, assembleia-geral de uma nova época, urge que abandonemos nosso conforto iluminista do tudo tem sua razão: essa luz ficou fraca, está nos deixando na sombra e liberando monstruosidades. A psicanálise tem novas contribuições para o momento atual. Não se trata mais do Freud explica, mas do Freud implica. O Freud explica é do tempo da revelação do saber escondido, fora da consciência, no inconsciente. O Freud implica é de agora, da constatação de que, de uma sociedade da razão, fomos a um novo tipo de laço social: o ressoar, "tá ligado?". Essa é a pergunta dessa geração que está aí, a geração mutante. Seus membros não perguntam se o que ele disse você entendeu, mas se lhe tocou, se você pode fazer alguma coisa com o que ele falou, não a mesma coisa feita por ele, mas algo marcado, atravessado por sua singularidade, necessariamente diferente da dele, daí o "tá ligado?".
O que se teme é que então estaríamos caminhando para uma esbórnia geral de comportamentos individualistas. Falsa conclusão de nossas mentes viciadas na segurança da razão padronizada. A sociedade do ressoar exige um duplo movimento de cada um: invenção e responsabilidade. Invenção, pois quando falta o caminho pré-estabelecido há que se inventar um. E responsabilidade, pois se deve inscrever no mundo a sua invenção, motivo pelo qual o medo do individualismo não se sustenta.
Para isso, uma guinada de 180 graus nos é exigida. A educação, sem dúvida, é um dos principais setores dessa mudança que já tarda. Em vez de medicalizar o aluno supostamente inadequado à escola, como tem sido feito nos últimos anos, amparados abusivamente no diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), melhor questionar a escola; não essa ou aquela, mas a instituição escolar, se ela está preparada para uma sociedade viral, das redes horizontais, da criatividade responsável. Na medida em que pudermos habitar esse novo mundo com uma nova bússola, na medida em que ampliarmos a legitimação das singularidades, seremos menos surpreendidos. Estamos atrasados.

JORGE FORBES É PSICANALISTA, PSIQUIATRA. PRESIDE O INSTITUTO DA PSICANÁLISE , LACANIANA - IPLA, DIRIGE A CLÍNICA DE , PSICANÁLISE DO CENTRO DO GENOMA HUMANO, DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A arte de ator, Luís Otávio Burnier

   
texto para o início do dia, reunião de equipe de 26/08/11
  
A ARTE DE ATOR, Luís Otávio Burnier
LUME
 
Yan, alma para os índios. Estaria ela perdida, esquecida, ou em simples e imperceptível transformação? Uma transformação que por não ser muito percebida, vem a ser perigosa. Como lutar contra o que sequer percebemos, contra o que não se sabe? Será possível ter consciência daquilo que não se percebe?
A arte trabalha antes de mais nada com a percepção. Seu poder principal não está em o quê dizer, mas como. Quando atinge a percepção, é que ela revoluciona. É no inconsciente que encontramos nossa particularidade, nossa individualidade, mas também os elos que nos atam uns aos outros. E a arte, quando logra atingir nosso inconsciente, nossa percepção profunda, vasculha um universo equiparável ao dos sonhos, dos pesadelos, como desejou Artaud.
Mas atingir este universo interior, subjetivo, perceptivo, a arte precisa fazer uso de instrumentos materiais objetivos. Com freqüência se diz que o instrumento de trabalho do ator é o seo corpo. FALSO. O instrumento de trabalho do ator não pode ser o corpo. Não podemos transformar um defunto em ator. O corpo não é algo, e nossa pessoa algo distinto. O corpo é a pessoa. A alma o anima, mas sem ele não seríamos pessoas, mas anjos. Tampouco é o corpo vivo o instrumento de trabalho do ator. A arte é algo que está em vida, ou seja, algo que irradia uma vibração, uma presença. é o corpo-em-vida, como prefere Eugenio Barba, o instrumento do ator.
Existem, no entanto, como nota o próprio Barba, pelo menos duas dimensões interior. As duas formam uma unidade. Esta unidade, no âmbito do trabalho do ator, nem sempre é ou pode ser trabalhada como tal. Ela deve ser vista não como ponto de partida, mas como ponto de chegada. Pode-se, e é muitas vezes necessário, trabalhar estas dimensões separadamente.
No entanto, não se pode perder de vista a unidade. Trabalhar tão-somente a dimensão física e mecânica seria formar jovens belos e fortes, mas não necessariamente atores; trabalhar apenas a dimensão interior poderia ser terapêutico, mas tampouco formaria atores. Uma não existe sem a outra, mesmo que o enfoque possa estar momentaneamente concentrado em uma ou outra destas duas dimensões. A imagem usada por Artaud é novamente bem-vinda: atletas afetivos.
Se o corpo não é tão-somente corpo, mas corpo-em-vida, então ele é o canal por meio do qual o ator entra em contato com aspectos distintos de seu ser gravados em sua memória. O corpo não tem memória, ele é memória, como disse Grotowski.
Trabalhar o ator é, sobretudo e antes de mais nada, preparar seu corpo não para que ele diga, mas para que ele permita dizer. Não mostrar o que ele é, mas revelar o que, por meio dele, se descobre ser. Ser artista é antes de mais nada se predispor a revelar. A revelação pede generosidade e coragem. Uma máscara pode mesquinha e covardemente esconder, ou revelar, dilatando o que não se vê. Depende de como ela é usada. Um corpo também. Podemos nos esconder atrás de nosso corpo, de maneira a deixá-lo belo, e isto não ser uma forma de escamotear o que temos medo de ser ou demonstrar. Ou, ao contrário, por meio do corpo podemos revelar o que somos e sentimos.
O artista descobre por meio de sua arte o sentido das coisas. Ele não diz o sentido, nos permite descobrir um sentido. E, paradoxalmente, este sentido não está em outro lugar se não em nós mesmos. O artista e sua arte abrem, portanto, caminhos que nos permitem entrar em contato com nossa própria percepção profunda, com algo que existe em nós e está adormecido, esquecido. A arte não é senão uma viagem para dentro de nós mesmos, um reatar contato com recantos secretos, esquecidos, com a memória.
A busca do ator, assim como a de todo artista que quer algo mais do que um simples reconhecimento social e econômico, é a incontestável tentativa de reavivar a memória. A verdadeira técnica da arte de ator é aquela que consegue esculpir o corpo e as ações físicas no tempo e no espaço, acordando memórias, dinamizando energias potenciais e humanas, tanto para o ator como para espectador.
(Corpos em fuga, Corpos em arte, org.: Renato Ferracini, Ed. Hucitec, 2006)
   

como dançar?

A equipe planeja o próximo Territórios da Dança, que será dia 04 de setembro no CEU Caminho do Mar. E uma referência que surge pro Fabio Farias é...:


 

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Aprender a aprender

Vídeo compartilhado pela equipe Norte (dança, teatro, música, artes visuais)!

  
...e complementado pelo Fabio Villardi:
"Quando o homem, resgatado da cegueira,
vir Deus num simples grão de areia errante,
terá nascido nesse mesmo instante a mineralogia derradeira...."
                                                                                                          Augusto dos Anjos
   

sábado, 23 de julho de 2011

protocolo AO Luciano Amorim (dança/CCJ) . ação no Memorial da Resistência

Monumento Tortura Nunca Mais - Rua da Aurora - Recife - PE

Dita Caluda
Luciano Amorim

As foligens Esvoaçantes desta queimada
Descerão e mancharão minha canarinha.

Toma conta de tudo...

É o passado, é o presente que eu não quero ofertar.

Verdades e mentiras
Tudo posso, quero, moldo.

É o tempo, esse sim é implacável.
Transforma, deforma e torna-se a formar, outro.
Tudo muda.

Muda, a nação entorna o cálice.

É o Brasil do pique – esconde.

Alguém bateu e nem todos apareceram.
Salve todos!

A cidade em seu papel.
Dos papéis impalpáveis, são histórias de verdades.

Viúvas de vivos lares.

Restam-nos, os símbolos, paliativos, construções monumentais.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

compartilhando... Rubem Alves . A pedagogia da travessia

texto levado à reunião de ação Norte/Sul, pela coordenadora da região Norte - Dança, Zina Filler.

A PEDAGOGIA DA TRAVESSIA
Rubem Alves

Os alunos, ao observarem o professor, perceberão que a aprendizagem não está na partida nem na chegada.

A MENINA QUE me conduzia pela Escola da Ponte na minha primeira visita me disse que na sua escola não havia professores dando aulas. Espantei-me. Nunca me havia passado pela cabeça que houvesse escolas em que professores não davam aulas. Pois as aulas não são o centro mesmo da atividade escolar? As aulas não são o método que as escolas usam para transmitir saberes? E os professores não são os portadores desses saberes? Todo mundo sabe que a missão de um professor é “dar a matéria”… As escolas existem para que as aulas aconteçam… E agora essa menininha me diz que, na sua escola, não havia professores dando aulas e ensinando saberes…
E mais: naquela escola, as crianças não ficavam separadas em espaços diferenciados, de acordo com seu adiantamento: os miúdos ficavam misturados aos graúdos… Mas a separação dos alunos segundo os seus saberes não seria uma exigência da ordem e da eficácia?
Disse ainda que não havia nem provas nem notas. Mas a avaliação… Como se pode avaliar o que foi aprendido se não há provas? Provas são instrumentos de avaliação!
E também não havia as divisões no tempo do pensamento. Nas escolas normais, o pensamento é como na televisão: a intervalos regulares, muda-se o programa. Uma campainha toca: 45 minutos, todos pensam matemática. Transcorridos 45 minutos a campainha toca de novo, os pensamentos da matemática são guardados e, no seu lugar, são colocados os pensamentos de história, até que a campainha toque de novo e os pensamentos de história sejam substituídos pelos pensamentos da biologia. Tudo em ordem perfeita, como soldados em parada, todos caminham juntos aprendendo as mesmas coisas no mesmo tempo, numa imitação das linhas de montagem. Que extraordinárias “máquinas de pensar” são os alunos, que mudam os pensamentos automaticamente ao comando de uma campainha!
Perguntei, então, à menina: “E como é que vocês aprendem?”. Ela não titubeou: “Formamos grupos de seis alunos em torno de um tema de interesse comum…”
Percebi que, naquela escola, não havia nada que se assemelhasse às “grades curriculares”. Grades… Somente um carcereiro desempregado poderia ter ideia tal. Grades. Não há opções, não há escolhas: um desconhecido colocou os saberes obrigatórios dentro de uma grade; conhecimentos “engradados”…
Mas a menina me havia dito que tudo se iniciava com o desejo de aprender algo, curiosidade, que nem precisava estar em qualquer grade obrigatória. Esse desejo era a alma da aprendizagem, a provocação da inteligência. Continuou:
“Convidamos um professor para ser nosso orientador…”
Pode até acontecer que o professor nada saiba sobre esse “tema de interesse comum”. Não importa. Os professores não sabem tudo. Não sabendo, pesquisam. E os alunos, ao ver o professor explorando os caminhos que o levam àquilo que ele não sabe, perceberão que o aprender não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia, como disse o educador Riobaldo.
E fiquei a pensar em como seria essa coisa a que se poderia dar o nome de “pedagogia da travessia”…
 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

coreografia

Indicação da Patrícia Werneck (coordenadora artístico-pedagógica de dança, equipe Sul 3):
"tá tudo aí."



sábado, 18 de junho de 2011

reunião itinerante . CEU Meninos

Na última sexta-feira, dia 17 de junho, a equipe Sul 1 (que se reúne regularmente às sextas-feiras no CEU Caminho do Mar) fez sua primeira reunião itinerante. Fomos para o CEU Meninos, onde estiveram conosco a Lilian Morais (coordenadora de cultura do CEU), o Rodrigo (técnico de luz do CEU e diretor do grupo Os Perturbados, que tem orientação de dança e de teatro pelo Vocacional) e o Fábio (técnico de som do CEU).
Seguem os textos que levamos para disparar nosso bate-papo.
Em breve, também, imagens dos recortes fotográficos que fizemos, em uma rápida caminhada pelo CEU Meninos.

“Em geral, mantemos o corpo adormecido. Somos criados dentro de certos padrões e ficamos acomodados naquilo. Por isso digo que é preciso desestruturar o corpo; sem essa desestruturação não existe nada de novo. Desestruturar significa, por exemplo, pegar um executivo ou uma grã-fina, desses que buscam as academias de dança e, colocando-os descalços na sala de aula, fazer que dêem cambalhotas. Esse é o caminho para a desestruturação física, que dá espaço para que o corpo acorde e surja o novo. No fundo, é uma mudança de ritmo: se vou todos os dias pelo mesmo caminho, não olho para mais nada, não presto atenção em mim ou no ambiente. Mas se penetro numa rua desconhecida, começo a perceber as janelas, os buracos no chão, despertando para as pessoas que passam, os odores, os sons. Se o corpo não estiver acordado é impossível aprender seja o que for.”
(A Dança, Klauss Vianna)

(...) A crítica de Paulo Freire aos processos de ensino e aprendizagem da leitura da palavra feita nas décadas de 1960-70 e que se estendem até hoje não pode ser mais ignorada pelo universo da dança - ensinar e aprender a ler é um ato eminentemente comprometido com as relações sociais, com a vida em sociedade, com estar no mundo e vivê-lo conscientemente. Ler não é passar por cima das palavras, dizia Freire. Passar por cima das palavras sem entendê-las, sem pensá-las ou sentí-las, sem criticá-las e relacioná-las a um contexto maior é uma atitude absolutamente ingênua - ou perversa - nos dias de hoje.
Parafraseando Paulo Freire, ler a dança também não é passar por cima dos passos e dos movimentos, decorá-los e usá-los corretamente nas apresentações de fim de ano. Ler uma dança não é o mesmo que possuir habilidades corporais e técnicas específicas, vocabulário preciso ou o código padrão aprovado pelo senso comum para reproduzir coreografias prontas. Ler criticamente a dança -  dançar, assistir, compor, pesquisar, produzir, ensinar - passa por outros caminhos que não o da memorização surda, da cópia inconsciente, da reprodução mecânica.
Nessa linha de raciocínio, "não fazem sentido" processos de ensino e aprendizagem da dança que não proponham múltiplas leituras críticas com/do mundo. "Não fazem sentido" processos de ensino e aprendizagem da dança que não (re)tracem teias claras, abertas, flutuantes e significativas entre seus atores - alunos, professores, diretores, coreógrafos, intérpretes, apreciadores, pesquisadores, produtores - e as redes sociais globais. (...)
Em outras palavras, não basta nos jogarmos no suor da dança, nos embriagarmos de experiências visuais ao assistir a danças, termos êxtases criativos ao produzir, compor e pesquisar. As relações dessas experiências e experimentações, certamente articuladas para que permitam e se abram também para leituras possíveis de mundo. (...)
(Linguagem da Dança - Arte e ensino, Isabel Marques)

Uma ação cultural de criação é um processo coletivo e interativo, aberto para a criação. Nela, o mais importante é envolver as pessoas, ampliando suas oportunidades de diálogo, de reflexão e de construção de sentido para além daquilo que lhes é dado.
Segundo Teixeira Coelho, ela pode partir das mais diversas formas, como de um espetáculo, de uma exposição, de um evento público, pois o termo criação não corresponde à construção física de uma obra, mas a todas as relações das pessoas entre si e com o produto cultural de forma a criar as condições de reflexão e de expressão cultural.
Na ação cultural de criação, diferente de ações culturais convencionais, não existe um fim pré-determinado, previamente estabelecido e controlado, como o consumo de um livro, de uma peça teatral ou de uma idéia, mas um conjunto de possibilidades que permite mais largamente o envolvimento, a apreensão do novo, o entendimento e a satisfação.
Por isso, se diz que a ação cultural de criação existe como uma aposta, por que ela deve trabalhar com o imprevisto, o inesperado que surge no processo com a ação das pessoas que dela participam. Ou seja, tudo aquilo que surge a partir da proposta inicial, pode ser incorporado como parte da ação, deixando o público de ser meramente consumidor para ser agente de transformação.
(Ação cultural de criação: espaço aberto para a renovação do conhecimento, Projeto Curiaca. Porto Alegre/RS)

   

quinta-feira, 16 de junho de 2011

chegando pelas redes de compartilhamento do vocacional...

             
do Ipojucan para coordenadores; da Dani Dini para as equipes norte e sul...

"A educação não tem como objeto real armar o cidadão para uma guerra, a da competição com os demais. Sua finalidade, cada vez menos buscada e menos atingida, é a de formar gente capaz de se situar corretamente no mundo e de influir para que se aperfeiçoe a sociedade humana como um todo. A educação feita mercadoria reproduz e amplia as desigualdades, sem extirpar as mazelas da ignorância. Educação apenas para a produção setorial, educação apenas profissional, educação apenas consumista, cria, afinal, gente deseducada para a vida.
(O espaço do cidadão, Milton Santos)


UBUNTU
A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.
Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.
Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"
UBUNTU PARA VOCÊ!